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30/05/2019
Perfil de refugiados no Brasil revela alto grau de escolaridade e de desemprego
Entre as barreiras enfrentadas por quem foge do próprio país por conflitos armados ou perseguição pela religião, raça ou opinião política, está a reinserção no mercado de trabalho no local de destino. No Brasil, a dura realidade dos refugiados acaba de ser comprovada em números: apesar do alto nível de escolaridade – acima da média brasileira –, eles são mais afetados pelo desemprego. A dificuldade de validação do diploma e os entraves sociais são os principais motivos.
Nesta quinta-feira, 30 de maio, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em parceria com a Cátedra Sérgio Vieira de Melo, lançou a pesquisa Perfil Socioeconômico dos Refugiados no Brasil – subsídios para elaboração de políticas públicas. Marco na produção de conhecimento sobre o tema refúgio no país e sobre a integração dessa população altamente vulnerável, a publicação analisa diversas variáveis socio demográficas e laborais.
Foram realizadas 500 entrevistas, amostragem em um universo de 4.514 refugiados, correspondente a 84,9% do total de 5.314 residentes no Brasil. A base foi disponibilizada ao Acnur pela Polícia Federal/Ministério da Justiça. Entre os entrevistados, 166 – 34,4% dos refugiados – concluíram o Ensino Superior e 15 já cursaram alguma pós-graduação (especialização, mestrado ou doutorado). Na população brasileira, apenas 15,7% concluíram o mesmo nível de ensino.
Formação e emprego
Ainda sobre o grupo, apenas 13 (2,7%) não completaram o ensino fundamental e três declaram-se analfabetos (0,6%), o que dá um total de 16 (3,3%), contra 41% da população brasileira nessa mesma condição. Apesar de diplomados e com grande potencial produtivo, os refugiados esbarram na dificuldade de revalidação do diploma. Só 14 da amostragem conseguiram ter seus diplomas revalidados, em todos os níveis de ensino e em formações profissionais diversas.
De nacionalidades diferentes, como Síria (153), República Democrática do Congo (116), Angola (42) e Colômbia (36), 92% declaram que falam português, sendo que boa parte fez ou está fazendo curso. E sobre geração de emprego e renda, outro dado preocupa, porque 19,5% estão procurando trabalho. Entre os que exercem alguma atividade laboral, 22% estão ligados ao ramo empresarial, o que demonstra a importância do empreendedorismo – reforçada pela disposição em empreender, citada por 79,3% dos entrevistados.
Abrangência nacional
A amostra foi aplicada em 14 cidades, distribuídas em oito Unidades da Federação – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina, Minas Gerais e Amazonas. Essas regiões concentram 94% dos refugiados sob proteção do governo brasileiro.
Segundo o Comitê Nacional dos Refugiados (Conare), atualmente, existem 6.500 em todo território nacional. “O número é baixo, mas espera-se que seja um reflexo de que eles têm se naturalizado brasileiros. Uma parte, é claro, voltou para o seu país e outra parte realizou uma nova migração, mas não se sabe o porquê”, diz o Bernardo Laferté, coordenador geral.
Para diversos órgãos e entidades envolvidas na temática, as informações são úteis inclusive para testar políticas públicas, pois ajuda a entender o papel dos Estados, dos Municípios e da sociedade civil. “O refugiado não é o problema. O refugiado é uma oportunidade”, defendeu o migrante alemão Volker Egon Bohne.
Venezuelanos
O Brasil, recentemente, entrou para a rota de acolhimento de migrantes venezuelanos, sendo que a maioria começou a chegar a partir de 2010. Estima-se que cerca de 3,5 milhões deixaram a Venezuela e migraram para outros países. O levantamento do Acnur não trata desta população por não serem solicitantes de refúgio. Hoje estima-se que 1 milhão de migrantes vivem no Brasil, refugiados ou não.
“A pesquisa visa a entender como vivem essas populações no Brasil. Ao conhecer, estamos em melhor condição de prover políticas públicas, identificar e superar gargalos, e gerar uma melhor qualidade de vida”, destaca Paulo Sérgio de Almeida, Oficial da Unidade de Meios de Vida do Acnur.
A Confederação Nacional de Municípios (CNM) lançou, neste ano, em parceria com governo federal e órgãos das Nações Unidas, a campanha Interiorização+Humana, que espera sensibilizar e orientar os gestores municipais e a comunidade para a resposta mais adequada, do ponto de vista social e econômico, ao fluxo migratório.
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